Moncorvo

 

ara o viajante a quem não só o termo da sua jornada interessa, uma visita a Moncorvo deve fornecer-lhe um inapreciavel capitulo de absorvente curiosidade que compensará generosamente as incontaveis fadigas soffridas.

 

 

 

 

Sensações paisagisticas as mais antagónicas, os mais inopidados incidentes, aspectos ethnographicos os mais diversos, tudo isso se lhe offerece provocando alluviões de notas rapidas, suggestivas, edificantes, nas breves paginas d’uma carteira previdente.

 

 

         Effectivamente, chegando ao Pocinho depois de percorrida a linha férrea do Douro, com a sua série indefinida de surprezas emotivas, logo se patenteia, ao sahir d’aquella estacãosinha arrumada a um canto da alta nave d’eucalyptos, o espectáculo singular, n’um acre sabor de imprevisto, de todos os meios de locomoção e transporte que precederam o comboio.

 

 

         Um guia desconhecido e não solicitado dirige os recem-vindos, atravessando os rails e enveredando por um córrego sinuoso que vermifuga por entre courellas de milho, olivedo e hortejo, até ao leito do rio; na cauda silenciosa da caravana, burros de carga conduzem as bagagens. Sobre a corrente, mas com o bico de popa recostado na margem, espera uma barcaça de fundo chato, pachorrenta e bamboleante, que recolhe com indifferença e impassibilidade passegeiros e quadrupedes, os quaes se vão accommodando até ao fundo das apégadas onde range a espadéla e se olham com bonhomia e affecto ante a camaradagem familiar que o destino brejeiro lhes proporcionou. Findo o embarque, muitas vezes demorado e difficil pela teimosia irreductivel dos solipedes, aquella revivescencia biblica da arca de Noé desloca-se ao arrepio da agua e ao longo d’um calabre para a riba d’além.

        

 

 

 

Moncorvo

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       Transposto assim o Douro, nova caminhada segue até ao alto da estrada, onde uma decrepita diligencia attende cargas e viandantes. Então aquella põe-se em marcha, ronceiramente, subindo, subindo sempre, pelo macadam salvado, poeirento e caracolante sobre a vertente da montanha sombria, povoada de enfezadas semeaduras de centeio e de amendoeiras e olival; duas horas bastam para arrivar a Moncorvo situada no plató irregular e onduloso que se prolonga do sopé da serra de Roboredo, erguendo a sul o seu altivo dorso.

 

 

         A villa não é pequena e com importância industrial e comercial, embora decahida da antiga prosperidade que lhe insuflaram as industrias cordoeira e sericola. Esta é hoje, moribunda, senão já liquidada; aquella, sem o desenvolvimento de fabrico mantido n’uma existência multisecular sob a interferencia directa do Estado iniciada, com a creação da Cordoaria e Armazém real, no tempo de D. Sebastião.

 

 

         Se estes factores de ruina não fossem, por si, sufficientes a impedir o devido crescimento e folgança economica do povoado excellente, outra circumstancia desastrosa e deploavel o inhibe d’alcançar a preponderancia e latitude a que tem jus: a inexploração do colossal jazigo de ferro do Reboredo que se estende n’uma área de 10 Kilometros e cuja massa de minério é computada em sessenta e cinco milhões de toneladas e disposta em excepcionaes facilidades extractivas.

 

         Moncorvo é ainda uma terra de nobreza, também, fenecida a ajuizar pelo abandono e descalabro dos solares brazonados, salvo um outro que ainda mantem, com ostentação e prestigio, as tradições da sua velha heráldica.

         De resto com apertados e maus arruamentos cingidos á traça archaica sem obediencia a plano systematico, e rebelde a noções de geometria e hygiene, á parte o estricto desafogo de tal ou qual melhoramento dos modernos municipios.

 

 

Moncorvo

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         E d’entre o seu agglomerado architectural d’uma genérica indigência orgânica sómente conseguem alliciar o reparo do forasteiro alguns dos sisudos casarões fidalgos, recolhidos no seu mudo hieratismo, altivo e independente, e uns dois edificios religiosos procedentes do século XVI: a Misericordia e a Matriz.

 

         Aquella, mesmo adstringe o valor conceptivo e artístico á frontaria com o porticosinho em curva perfeita e de frisos concentricos com dois medalhões ao alto entre pobres pilastras que o encerram; esta lisa e singela Renascença accusa-se ainda n’um pulpito de granito, que se perfila, ao lado, no ângulo formado pelo resalto d’uma contigua vivenda de escudo em riste, e tem a fórma de calix octogono com o baixo relevo d’um santo em cada face do pé a decoração bisonha e rude em rotulos e pendurados.

 

 

 

         A Matriz é um edificio monumentoso d’uma imponencia pesada e fria que se ergue ao fundo d’um pateo lageado com parapeitos d cantaria e obeliscos.

         Se as vastas construcções constituem testemunho elucidante e comprovativo do estado social d’uma povoação n’uma determinada época, esta igreja é um documento de inilludivel revelação quanto á efflorescencia de linhas a esbater-lhe a obsessiva rigidez. As datas de 1562, na porta lateral coberta pelo alpendre, e de 1567, na opposta, justificam-no em parte.

 

         Exteriormente, uma severidade incoercivel, accrescida pela torre avançando a meio da frontaria e excrescendo-lhe em cubo rematado por uma balaustrada e ainda pelos robustissimos gigantes, seis por lado, a reforçar a estabilidade das paredes de Bastilha em cujo terço superior, demarcado por um friso, se abrem as exiguas janellas.

 

                  A composição do portico, d’encasamentos animados por estatuas d’uma penúria plastica, nos intercolunios do primeiro e segundo corpo e na ultima platibanda sobre que se rasgam as lucarnas e fenestra, não desvanece a desgraciosidade da espessa mole granitica. O interior de três naves divididas por elevadas colunmas cylindricas, como jarras tubalares, d’onde irrompem os feixes das nervuras divisorias e das que vão ligar com os ângulos do quadriculo reticulado afflorando ao centro de cada tramo em todas as abobadas. A capella-mór é differentemente organisada, em caixotões, e na sacristia de novo se encontra o artesoado que é o de mais esbelta e cuidadosa factura.

         Como arte sumptuoria e decorativa ha que especificar além d’alguns paramentos, d’um cofre de madeira com embutidos, d’uma custodia pomposa no schema architectonico proveniente da Renascença e d’um retabulo, n’este género, rudemente executado, um formoso tryptico d’escultura em madeira representando a Lenda de Santa Anna.

 

         Este precioso exemplar de talha gothica succumbindo todavia ante os reflexos do Renascimento eloquentemente se insinua como um producto de commovida e sincera mentalidade inspirada, porventura, ao gestal-o no tryptico pictorico do flamengo Quentin Massyz, existente na Real Galeria de Bruxellas. Fundamentalmente os mesmos assumptos e quasi a mesma imaginaria: Casamento de S. Joaquim e Santa Anna, Revelação prophetica do anjo a S. Joaquim e encontro d’este com a sua esposa á Porta Áurea de Jerusalém, e a Apresentação do Menino Jesus feita por Nossa Senhora a sua mãe.

 

         Abstrahindo da negligencia no acabamento de certos pormenores é uma peça bellamente modelada, no respeito harmonioso do arranjo e do modulo, na ostentosa e galante execução dos detalhes e no gracil e affavel sentimento que diffunde. Inedita até hoje, vulgarisada agora, apesar das sevicias na filigrana, principiará a ter, na estima critica, o destaque merecido como joia valiosa e rara do nosso saqueado patrimonio artistico.

 

 

 

 

         É findo o summariado inventario da capital dos territórios da amendoa no norte do paiz. Constitui este fructo uma das suas fontes de riqueza que em grande parte provém do Valle da Vilariça, uberrimo e fecundo pelas rebofas ou refluxo das aguas da ribeira e do Sabor, quando a corrente impetuosa do Douro não lhes permitte o escoamento e depositam então dos nateiros arrastados durante a represa. Assim a natureza pela destruição e anomalia dos seus movimentos prodigalisa ao homem o dom carinhoso, que lhe faz erguer o clamor agradecido.

 

 

 

Manuel Monteiro In “ A Arte e a Natureza em Portugal” Nº 78

Emílio Biel & C. – EDITORES PORTO