Núcleo

Dentro da génese da História de Torre de Moncorvo irá nascer, nos meados do mês de Junho do ano de 2006, o Núcleo Museológico da Fotografia do Douro Superior.

Será na Rua Dr. Abílio de Campos Monteiro, nº 14, que o evento terá a sua residência fixa.

A grande escolha da casa deveu-se ao facto de ter sido habitação e estúdio “à la minuta do Sr. Francisco Garcia", homem rectílinio, de fino trato, de moral acrescida e de sensibilidade apurada. Taxista de profissão e destemido na sua arte, como bem documenta o retrato da passagem na ponte do rio Sabor, na maior cheia que há registo ( 1962).

A casa, requeridos os registos ao Arquivo Distrital de Bragança, teve como primeira proprietária a Sr.ª Adelina Camila, Doc. NOT/50 de 9 / 7 / 1927, da Torre do Tombo/Bragança, venda feita, aos nove dias do mês de Julho de mil novecentos e vinte e sete, pelo preço de três mil escudos à Sr.ª Cândida Augusta Gouveia, residente na América do Norte.

Por último, Maria da Conceição Campos Silveira e Sousa vendeu, a Arnaldo Duarte da Silva e Ilda Maria Pando da Silva, o imóvel no dia 21 de Outubro do ano de dois mil e quatro.

Vivaldo Carrilho Fonseca é o arquitecto responsável pela obra. É natural  de S. João da Pesqueira e tem um Atelier de Arquitectura em Vila Real, de nome Real Risco.

A reconstrução obedecerá a um rigor extremo na caracterização do Alçado Principal e todo o seu interior terá grandes aproveitamentos de luz e liberdade de espaços .

A rua, só por si é um hino à história e arquitectura medieval. Aí, a escassos metros, observámos, com demasiada mágoa, a casa onde nasceu o escritor. Está a ser esquecida, tal qual toda a zona do Castelo. Tamanha negligência que só tem proporcionado abandono e descaracterização dos espaços, como se pode constatar por construções recentes.

Abílio de Campos Monteiro nasceu em Moncorvo a 7 de Março de 1876. Foi baptizado na Igreja Matriz em 10 de Abril de 1876 e faleceu em S. Mamede de Infesta em 4 de Dezembro de 1933.

O seu busto, que se encontra no outrora chamado Largo Alexandre Herculano, foi inaugurado em 1938. Só foi possível a sua construção porque um grupo de signatários da terra, António José Martins, Camilo Ferreira de Andrade, Claudino Augusto Chaves de Oliveira Pereira, António Augusto Serra, António Joaquim Marrana e Guilherme de Castro Leandro, tomaram a iniciativa de fazer circular uma carta a solicitar a colaboração monetária para a construção do monumento a Campos Monteiro. De entre os que mais contribuíram, é justo destacar o abade José Tavares de Carviçais, o Dr. José de Abreu, o Dr. Abílio Eugénio Pontes e Alberto Américo de Brito com 50$00, com 100$00 António de Carvalho Montenegro, D. Ana Benedita de Campos, Artur Américo Margarido Pacheco e com 150$00 o padre Francisco Manuel de Castro. Para as despesas da Inauguração, o conde da Covilhã participou com quinhentos escudos, segundo registos na pasta do Monumento a Campos Monteiro, propriedade de Arnaldo Silva, gentilmente oferecida por Antero Aníbal Pontes de Castro.

Sabido também é o orçamento da obra, segundo declaração entregue aos signatários por Artur Ferreira Pinto, responsável da construção.

Assim, ele escreveu: "Declaro que me comprometo a executar, em granito, as fundações, pedestal e um guiamento, destinados ao Monumento a Campos Monteiro, a erigir no Castelo de Moncorvo, de harmonia com a maquete e desenhos que me foram apresentados e as condições e encargos por mim lidos".

  A obra foi orçamentado em 8.000$00 e, ao contrário dos tempos modernos, não houve derrapagem financeira e consequente acertos de contas.

O Padre Castro, diga-se com verdade que a minha mensagem merece, já deveria ter sido homenageado pelos responsáveis da Autarquia, atendendo à grandiosidade da sua obra literária e à intervenção social na evangelização por terras de Nampula, Moçambique e na construção do Hospital da Misericórdia Rainha D. Amélia, enquanto provedor de tão nobre instituição.

Na verdade, quem está a levar este grande objectivo para patamares globais é Arnaldo Duarte da Silva, nascido em Lamego e a viver em Torre de Moncorvo. Após a abertura de uma loja de Fotografia em 15 de Dezembro de 2001, na Rua Constantino Rei dos Floristas, n.º 16, tendo de nome ARTIMAGEM, sentiu por parte de todos os Moncorvenses um grande incentivo para se poder partilhar e mostrar as imagens e registos de todo o Douro Superior, desde 1 de Janeiro 1896, com as primeiras fotografias do Padre Adriano Guerra até à actualidade.

O grande passo conquistado foi o de ter adquirido todo o espólio do primeiro fotógrafo de Moncorvo. O Sr. Zeca Peixe, assim chamado por terras de Moncorvo,  esteve ligado muito directamente à polémica da Santa de Vilar Chão no concelho de Alfandega da Fé.

  Milhares de retratos e todas as alfaias fotográficas com algumas dezenas de anos, atestam o modo e a forma de fazer a fotografia em Moncorvo e na restante região transmontana.

Dos registos digitalizados já se podem contabilizar cerca de dez mil imagens.

Por seu lado, Antero Aníbal Pontes de Castro, nascido a 7 de Setembro de 1926, confiou as fotografias de seu tio Padre Castro a Arnaldo Silva, para o Núcleo. Dádiva que jamais nos poderemos esquecer e, sobretudo, aplaudirmos o acto benemérito de tão lúcido e conselheiro amigo. As mesmas, seguramente as mais antigas de Moncorvo, com todas as quintas do Vale da Vilariça, são o grande suporte de imagem duma época pouco documentada.

Uma mais valia para o enriquecimento do espaço Museológico, deveu-se também ao Dr. Fernando Simões que amavelmente cedeu ao promotor desta iniciativa cultural todo o espólio de seu pai, Dr. Horácio Brilhante Simões, veterinário em Moncorvo e homem que bem justificaria uma grande Homenagem. Matou a fome, sem subsídios do Estado, a centenas de crianças desta vila na cantina por si criada no Largo Diogo de Sá. Aí exerceu durante largos anos a sua actividade profissional de veterinário.

A História, quando bem contada, saberá acolhê-lo como um dos grandes beneméritos e benfeitores deste Concelho.

Sabendo que o enriquecimento dos espaços culturais são passos sequenciados de contactos para possibilitar mais e melhor divulgação, a Câmara, na pessoa de seu presidente, Eng. Aires Ferreira, anuiu em possibilitar a digitalização do arquivo fotográfico do Dr. Santos Júnior, ao qual agradecemos. Neste podemos encontrar registos fabulosos de aspectos etnográficos, antropológicos e arqueológicos.

 E assim, na senda de se poderem mostrar, arquivar e acondicionar os mais variadas registos, as surpresas já só poderiam bater à porta da Artimagem, com o slogan ARTIMAGEM APOSTA.

 Mas, o dia 20 de Junho de 2005 foi dos mais importantes para o Núcleo Museológico.

Ao serem realizadas Obras no Estúdio Torre, sou alertado para a existência de fotografias na lixeira Municipal. A única reacção consciente que tivemos foi o de nos deslocarmos imediatamente ao local. Com quase 40 graus e grande ameaça de trovoada, foi possível fazer a recolha e recuperação de quase a totalidade de muitos anos de trabalho de José Manuel Carva. E, assim, desta maneira, foi possível salvar imensas histórias e feitos de Torre de Moncorvo.

 Este, o verdadeiro e sensato, o jovem da fotografia, acompanhou-me ao local. E, eu às 5 horas da tarde, vejo-me a recolher, segundo arquivo já registado, mais de duzentos mil negativos que, seguramente todo o trabalho de recuperação só se concluirá com a paciência e a técnica  que o merecido estabelece. Muito tempo, com a sorte do mesmo estar nas mãos de quem lhe pode facultar respeito e visibilidade ao Mundo.

  Jamais este artista, de seu nome José Manuel Carva, imaginaria que tão significativos registos de Torre de Moncorvo fossem, pura e simplesmente, colocados na lixeira para que, ao abrigo da luz do tempo, se desintegrassem e os registos de 20 anos deixassem de pertencer a esta singular terra.

 Contudo, “Os retratos que ele tirou”, paradoxo dos paradoxos, ver capa do livro, quase os liquidaram de uma forma intolerável. O seu filho comoveu-se com tamanha frieza, ignorância e atitude anti - cultural. Recomenda-se a leitura do seu único livro publicado, “Retratos que eu não tirei”, edição da Câmara Municipal de Alijó.

Por terem sempre acreditado neste projecto, há que agradecer à Associação de Desenvolvimento do Douro Superior, na pessoa do seu administrador Eng. António Eduardo Morgado.

 Assim, o Núcleo Museológico, como espaço de abertura ao público, também terá a obrigação de mostrar o que de melhor se poderá encontrar por estas terras transmontanas. Muita imagem, muito objecto de valor histórico e documental, muitas máquinas de fotografar e filmar desde 1920…

Agora, só se aguarda autorização de construção por parte da Câmara Municipal, concordância do IPPAR e mãos à obra para inaugurar em Junho de 2006.

 

Que assim seja.

 

Arnaldo Silva

Torre de Moncorvo, aos trinta dias do mês de Julho de dois mil e cinco